Paróquia São José do Jardim Europa

Artigos › 16/01/2019

Saudade do infinito

Nos anos da juventude, quando a vida se apresentava particularmente cheia de desafios, sonhos e utopias, com freqüência, nós usávamos a expressão: Saudades do infinito. Num primeiro momento, certamente, ela se identificava como algo indefinido e vago, por vezes, como sentimento de saudade. À medida que os anos passaram, os estudos de filosofia se encarregaram de provocar novamente em nós a citada expressão, sobretudo, quando ouvíamos de nossos professores que o ser humano estava num constante vir-a-ser, sem identidade pronta ou definida, sempre se projetando para o futuro. Nesta fase da vida, a teologia ainda não nos havia revelado a profunda experiência pela qual o filósofo e teólogo Santo Agostinho (séc. V) tinha passado, até encontrar-se verdadeiramente com Deus, quando proclama magistralmente: “Nos fizestes para vós e o nosso coração não descansa enquanto não repousar em vós” (Santo Agostinho, Confissões, I, 1,1). A partir da fé, podemos entender Santo Agostinho na sua busca incansável sobre a verdade e a plenitude de sua vida. Ele também sentia saudades do infinito, mas sua conversão, que o fez encontrar o Senhor, demorou a chegar: “Tarde te amei, Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Tu estavas dentro de mim e eu te buscava fora de mim (…) Brilhaste e resplandeceste diante de mim, e expulsaste a cegueira dos meus olhos. Exalaste o teu Espírito e aspirei teu perfume, e desejei-te. Saboreei-te, e agora tenho fome e sede de ti. Tocaste-me, e abrasei-me na tua paz” (Confissões 10, 27-29). Como Santo Agostinho, cada um de nós pode contar sua experiência de encontro de fé com a pessoa de Jesus Cristo e que mudou a nossa vida, ou seja, quando começamos a viver a partir dele como “sujeitos novos”, como discípulos missionários (cf. DAp 243).

Anos atrás, a Revista Cidade Nova editou artigo, com o título: “Matar a ‘Saudade do Infinito’”, do psicólogo clínico, Diviol Rufino (cf. Ed 569, Ano LV, setembro de 2013, p. 40). Nada melhor para ampliar o leque das ciências que abordam o tema da Saudade do Infinito. Após afirmar com que se ocupa a jovem ciência da psicologia, o autor afirma: “Muitos profissionais desse campo descobrem que existe uma ferida que esta ciência, por si mesma, não pode curar: a ‘saudade do infinito’, ou seja, do transcendente. A mera racionalidade não atende essa expectativa”. Para confirmar seu modo de pensar, o autor cita um profundo conhecedor da experiência humana do pós-guerra, Igino Giordani, quando este psicólogo profeticamente afirmava: “É porque rejeitamos os ensinamentos da religião que nos é difícil perceber as mutilações mais graves do laicismo. Ter afastado a religião da nossa vida significa ter reduzido a cultura à erudição, a vida à técnica, a ciência aos manuais. Significa ter privado o espírito do homem dos valores do espírito. Significa ter tirado da sociedade os princípios constitutivos, para compor-se e reger-se; ter tirado dela o critério de escolha entre o bem e o mal, com o senso de responsabilidade e a consciência da culpa… O homem aprende como se faz uma máquina e ignora como ele próprio é feito. Sabe para que serve a atmosfera e ignora para que serve a sua alma” (idem).

Por isso, caros diocesanos e demais irmãos, nunca abafemos a saudade do infinito, pois ela é fundamental em nossa vida para encontrarmos seu verdadeiro sentido! Enquanto continuamos nossas férias ou tempo de trabalho, pensemos nisso.

Por Dom Aloísio A. Dilli – Bispo de Santa Cruz do Sul, via CNBB

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