Paróquia São José do Jardim Europa

Artigos › 12/11/2020

O que você entende por contemplação?

prayer-2403323-640

Santa Teresa D’Ávila não foi a primeira a explicar a oração dividindo-a em diversos estágios. Desde os padres do deserto no século IV, passando pelos vitorinos do século X aos doutores da Escolástica no século XII, sempre se entendeu e divulgou que existiam diversos graus na vida espiritual e, portanto, na oração. A divisão clássica e simplificada expõe sempre três gruas: os principiantes, os proficientes (ou experientes) e os perfeitos.

No entanto, como vimos no último artigo, em determinado momento da vida espiritual a oração se altera tão profundamente que se torna coisa distinta e, por isso, recebe outro nome: contemplação. Na metáfora de Santa Teresa sobre a rega do jardim ou horto da alma, deixa-se de buscar água no poço e passa-se a recebê-la de modo muito mais fácil e eficiente por meio de aquedutos ou canais.

Enquanto a definição tomista de oração nos diz que ela é todo um trabalho humano, isto é, uma elevação da mente a Deus, a contemplação, também segundo Santo Tomás, é uma “simples intuição da verdade que termina em um movimento afetivo” (ST II-II Q180A3). Ou seja, a própria Verdade se apresenta e, se seu ponto de contato é logicamente o intelecto, ela não para por aí, mas provoca a vontade gerando amor. Portanto, no caso da contemplação gerada pela vida interior, é uma ação de Deus que atinge a alma.

Os diferentes graus da contemplação

A palavra contemplação, no entanto, também pode se referir a outras realidades e não somente a essa, que é a mais elevada de todas, da intervenção de Deus. Vamos diferenciar então os graus da contemplação para entendermos melhor esta que é sobrenatural.

Pode-se definir como contemplação a observação, com admiração, de um espetáculo grandioso. Nesse sentido, contemplamos a imensidão e beleza do mar, das montanhas, ou contemplamos obras de arte e arquitetura. Este é o nível mais baixo de contemplação: a estética.

Como diferenças básicas entre olhar e contemplar, poderíamos dizer que o olhar se detém nisso ou naquilo, enquanto o contemplar procura abarcar todas as coisas ao mesmo tempo. No caso da contemplação estética, cada detalhe pode (e deve) ser interessante ao olhar, mas, de algum modo, a junção de todos estes detalhes provocam um conhecimento maior do que a soma das partes. Faz parte da contemplação essa admiração ou êxtase próprio daquele que abarca muitas coisas ao mesmo tempo.

É por isso que o objeto de contemplação, seja paisagem ou obra humana, não pode ser descrito com poucas palavras ou, até mesmo, não existam palavras que bastem e o abarquem. O mais próximo da explicação de uma contemplação estética é, portanto, uma poesia ou música sobre as belezas naturais, ou a descrição dos sentimentos e sensações levantadas em sua presença. Descrições que simplesmente não explicam nada, mas buscam evocar a mesma presença contemplativa em quem houve ou vê.

Contemplação intelectual

Um segundo grau na contemplação é a contemplação intelectual. Própria dos filósofos e matemáticos, é aquela obtida somente por reflexão. Está relacionada à compreensão de estruturas mentais antes inacessíveis ou teoremas geométricos e matemáticos. A famosa exclamação “Eureka!”, “Achei!”, do grego Arquimedes é seu principal modelo. O importante é que a causa (uma visão totalizante, abrangente) e o efeito (êxtase e alegria) são os mesmos da contemplação estética ou de qualquer contemplação.

Acima da contemplação intelectual temos a contemplação teológica. Os princípios são os mesmos, a compreensão de algo abrangente, muito superior às partes também. Idêntico também são os efeitos quando se estabelece a contemplação. A diferença está no objeto que a provoca: não é mais a observação estética ou a intelectual referente a coisas deste mundo, mas Deus, Sua revelação ou ação. É superior à intelectual, pois o “objeto” é muito superior, passamos do natural para o sobrenatural, do físico para o metafísico.

Contemplação sobrenatural

Por fim, chegamos àquela que nos interessa: a contemplação sobrenatural. Esta não só tem como objeto o próprio Deus, mas é causada por Ele. Na acepção de Santa Teresa, esta é a água viva do Espírito Santo que se derrama através de canais e aquedutos, nos principiantes e proficientes, e como a própria chuva que rega o jardim, nos perfeitos.

Nas palavras da doutora: “Na mística teologia […] para de trabalhar o entendimento, porque Deus o suspende. […] De modo algum devemos pensar em nós mesmos o suspender, digo que não se faça isso, nem de trabalhar com ele, porque ficamos bobos e frios […]. Ocupar as potências da alma e pensar fazê-las estar quietas é desatino” (Vida 12,5).

Deixa claro que a contemplação sobrenatural ou infusa é obra do próprio Deus, e que é mais do que tolice, é perigoso querer provocá-la por nós mesmos. O que é e como ela acontece então? De uma maneira direta, a contemplação infusa é a suspensão do intelecto diante de uma verdade sobrenatural. Incapaz de abarcá-la, permanece admirado e travado, e embora não consiga agir por si mesmo, torna-se passivo desta mesma ação, sendo movido e, este mesmo movimento, também provoca a vontade pelo amor.

Complicado? Ajudará se buscarmos mais de suas definições.

Ricardo de São Vítor, em seu Benjamin Maior, assim define a contemplação: “Um olhar livre e penetrante do espírito suspenso de admiração diante dos espetáculos da divina Sabedoria”. Coloca-se aqui em relevo que não é obra do próprio intelecto (por isso livre), que é muito mais profundo que uma mera apreensão normal das faculdades (penetrante) e que toca a vontade (suspenso de admiração) provocado pelo próprio Deus ou a divina Sabedoria.

São Francisco de Salles, no seu Tratado sobre o Amor de Deus, atesta: “A contemplação é uma visão simples, livre, penetrante e certa de Deus ou das coisas divinas que procede do amor e tende ao amor”. Salienta aqui que é sobre Deus ou sobre as coisas divinas e que tem o Amor como ponto principal, pois provoca o amor. Mas também lembra que, embora intelectual em sua essência, se é provocada por Deus, também é provocada pelo Amor em pessoa.

A partir do que vimos, se fôssemos simplificar ao máximo a definição de contemplação, poderíamos utilizar as palavras de São Paulo na carta aos Gálatas (Gl 5,6): a contemplação é a Fé operando através da Caridade. Ou, como atesta São João da Cruz (Noite II, 18,5): “A contemplação é ciência de amor, a qual é amorosa comunicação infusa de Deus e que juntamente vai ilustrando e enamorando a alma até elevá-la de grau em grau até Deus seu Criador”.

É, pois, uma comunicação de Deus na alma (que se encontra em estado de graça), porque é motivada pelo Amor e produz Amor, embora sua operação também passe pelo intelecto. Mas como é infusa, não passa pelas faculdades naturais do intelecto, agindo, isto sim, através das virtudes teologais e dos dons santificantes do Espírito Santo. Devido a essa operação, é santificante também, aumentando e inflamando a virtude teologal da Caridade.

O desejo ardente de unir-se a Deus

Entre seus efeitos, um desejo ardente de se unir a Deus, mas também grande quietude, paz e contentamento no espírito. E, por isso, o Beato Maria-Eugênio do Menino Jesus explica que “da obscuridade do mistério brota, mediante os dons do Espírito Santo, uma claridade confusa, um não sei quê que faz encontrar paz e sabor no mistério, que aí atém a fé ou a reconduz, libertando-a das operações discursivas da inteligência para lhe fazer encontrar repouso e auxílio neste ultrapassar toda a luz distinta. Pelos dons do Espírito Santo, produziu-se uma intervenção de Deus que aperfeiçoou a fé no seu ato teologal, transformou-a em fé viva e produziu a contemplação sobrenatural.”

Os sinais de Deus segundo São João da Cruz

São João da Cruz, no segundo livro da Subida do Monte Carmelo (13,2-4) esclarece com três sinais a evidência que Deus quer mergulhar a alma, que já avançou muito em oração, na contemplação infusa:

“Primeiro sinal é não poder meditar nem discorrer com a imaginação, nem gostar disso como antes; ao contrário, só acha secura no que até então o alimentava e lhe ocupava o sentido.” Isto é, o intelecto encontra-se bloqueado e insensível às operações de oração meditativa que fazia com facilidade e encontrava contentos como os descreveu Santa Teresa D’Ávila.

“Segundo é não ter vontade alguma de pôr a imaginação nem o sentido em coisas particulares, sejam exteriores ou interiores.” Neste segundo sinal, São João da Cruz esclarece que, se no primeiro sinal o intelecto não consegue se aplicar na oração e achar alegria nisso, também não consegue nada disso em coisas fora da oração. Não se trata, então, de uma aridez espiritual que impedia a oração, mas de um completo e complexo travamento das operações intelectuais que começam a ser assumidas pela virtude da fé e os dons santificantes para ação de Deus.

“O terceiro sinal, e o mais certo, é gostar a alma de estar a sós com atenção amorosa em Deus, sem particular consideração, em paz interior, quietação e descanso, sem atos e exercícios das potências, memória, entendimento e vontade, ao menos discursivos, que consistem em passar de um a outro; mas só com a notícia e advertência geral e amorosa já mencionada, sem particular inteligência de qualquer coisa determinada.” E, finalmente, sintetiza com um compêndio do que vimos neste artigo sobre a contemplação: Deus se comunica com a alma não com frases ou palavras (Sl 18), mas capturando sua atenção e, enquanto a impede de se dedicar, mesmo à oração, através de suas faculdades normais, infunde amor deleitoso que causa paz, quietação e descanso.

Comunicação amorosa

São João da Cruz (2 Subida, 14,2) também chama a contemplação de comunicação (do latim “notitia”), geral e amorosa. Trata-se, evidentemente, de um contato feito por Deus (comunicação), mas de forma que não é temática, ou específica, ou direta, mas geral. E se é claro que a causa é Deus, embora seu modo seja confuso (comunicação geral), seu efeito é claríssimo, causando um aumento no Amor e, por isso, amorosa.

Via Canção Nova

Download Premium WordPress Themes Free
Download Nulled WordPress Themes
Download WordPress Themes Free
Download Best WordPress Themes Free Download
lynda course free download
download xiomi firmware
Download Premium WordPress Themes Free
free download udemy paid course

Deixe o seu comentário





* campos obrigatórios.

X