Paróquia São José do Jardim Europa

Artigos › 22/10/2020

Amar a Deus é uma forma de oração?

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Embora o amor a Deus, apropriadamente chamado de Caridade, seja o maior de todos os dons (1Cor 12,31) e a maior das virtudes teologais, a única que permanece mesmo na eternidade (1Cor 13,8), é necessário trilhar um caminho para conquistá-la. Santo Tomás de Aquino nos ensina que uma é a ordem da dignidade ou perfeição, outra a ordem da criação ou geração (Suma Teológica I-II,Q62A4). A Caridade, perfeito dom e perfeitíssima virtude, precisa ser gerada a partir da Fé e a Esperança, ou seja, na ordem da geração ela é posterior as outras duas. Tudo isso examinamos com cuidado na série “Virtudes Teologais” também acessível neste canal.

Com a oração não poderia ser diferente. Embora a oração seja uma elevação da mente a Deus para amá-Lo, louvá-Lo e glorificá-Lo, as suas primeiras manifestações, ou primeiros graus da oração, precisam estar vinculados a conhecer melhor a Deus. Afinal, não se ama a quem não se conhece!

É assim que a oração vocal utiliza as orações passadas de geração em geração ou as litúrgicas para apreender e reafirmar as maravilhas de Deus e, assim, nesse hábito didático, aproximar-se do Senhor de todas as coisas. Esse método de aproximação e conhecimento se aperfeiçoa com a oração mental ou meditativa: conhecê-Lo, entendê-Lo, mesmo que indiretamente através das suas obras, passa a ser o principal foco. Mas não o verdadeiro.

A oração precisa ser um ato de amor

O verdadeiro objetivo de todo desejo de conhecer a Deus precisa ser amá-Lo com todas as suas forças, com todo o seu coração, com todo o entendimento (Lc 10,27 e Dt 6,5). Em última instância, a oração precisa ser a realização deste mandamento, um ato de amor, um desejo de permanecer eternamente junto.

Como Deus não é um objeto e também tem a capacidade de amar, esse amor é recíproco e tende a fusão do amado com o amante. Mais do que isso, Ele é o próprio Amor. O que ama e o que é amado unem-se de tal maneira que não se vê mais nada além do próprio Amor ou, como somente a poesia de São João da Cruz pode esclarecer: “Amada já no Amado transformada”… E isto resume toda a bem-aventurança da eternidade no céu.

É por esse movimento de amor que Deus não fica esperando a aproximação do ser humano na oração, mas também sai ao seu encontro. Quanto mais é “encontrado”, mais oferece-Se, buscando provocar essa união plena e indivisível. É por isso que Santa Teresa diz, como vimos no artigo anterior, que o poço começa a ter a água mais alta, mais próximo da boca e, por isso, muito mais acessível e fácil de se buscar.

Pelo mesmo motivo, o desenvolvimento normal da oração meditativa é a oração afetiva: aquele que buscava conhecer, se conhece verdadeiramente, ama. Se passa a amar, quer imediatamente desfrutar deste amor. Primeiro porque o amar pertence à vontade e é muito mais deleitável do que o conhecer que pertence à razão. Depois, porque como bem lembra Santo Tomás, se no começo é necessário conhecer a Deus para amá-Lo, posteriormente, somente amando-O é que podemos verdadeiramente conhecê-Lo. É o amar e ser amado que nos dá acesso a atributos que o intelecto jamais conseguiria compreender.

Os que não conhecem essas verdades sofrem na transição entre a oração e a contemplação e correm o risco de permanecerem eternos adolescentes na fé: procuram dissecar Deus na oração e no estudo das Escrituras, mas não conseguem perceber que Ele mesmo quer transformar esse contato superficial em um relacionamento real e palpável.

O Verbo que expira Amor

Na prática, o costume da oração meditativa feita com o intuito de conhecer a Deus para amá-Lo vai, cada vez mais profunda e rapidamente, gerando os contentos de que fala Santa Teresa e também já explicamos no artigo anterior. Esse deleite interior, essa alegria e satisfação de ver Deus se revelar através da meditação, só pode resultar num intenso amor e desejo de estar em sua presença.

Teologicamente falando, essa é característica marcante da visita do Verbo de Deus: do mesmo modo que o Filho veio ao mundo e se fez carne em sua missão visível na história, ele continua a ser enviado pelo Pai em missão invisível, ou seja, trazendo o conhecimento de Deus para a alma através da graça santificante. Por isso Santo Agostinho diz que “O Filho é invisivelmente enviado a cada um, quando é por ele conhecido e percebido”.

Porém, como saber se fui visitado por uma missão invisível do Verbo, que percepção é essa? A missão se dá quando o conhecimento que foi adquirido não veio sozinho, mas é um conhecimento com amor. Santo Tomás de Aquino esclarece que “não há missão do Filho por um aperfeiçoamento qualquer do intelecto, mas somente quando ele é instruído de tal modo que irrompe em afeição de amor, como se diz […] no Salmo: ‘Em minha meditação, um fogo se acende’” (SumaTeológica, I-Q43A5).

Pouco antes, Santo Tomás define o Filho como sendo o Verbo, mas não qualquer um, ou seja, não qualquer conhecimento, mas o Verbo que expira Amor. A verdadeira oração meditativa acessa o próprio Filho enviado em missão invisível e esse, se for realmente o Verbo de Deus, provoca Amor. Não um sentimento, mas O amor, o próprio Espírito Santo.

No dia a dia da oração meditativa, esse acesso ao amor se torna cada vez mais rápido e forte. É a “água alta” que chega cada vez mais facilmente, com menos trabalho, com mais deleite e satisfação interior. Embora Santa Teresa D’Ávila ainda mantenha a classificação de um “segundo modo de regar o jardim”, os teólogos que estudaram suas obras procuram dar destaque a essas novas características dizendo que é um novo modo de oração: a oração afetiva. Isso porque o afeto rapidamente assume o controle e, embora, tenha sido gerado pelo intelecto, vence-o e o relega a segundo plano.

Com o tempo, desdobra-se uma nova etapa da oração: a oração de simplicidade. Além do que já tratamos em relação a ela no artigo anterior, podemos agora esclarecer um pouco mais. Essa prática ou hábito da oração, aliada a ação cada vez mais efetiva de Deus, pois encontra um coração disposto, acelera e simplifica a oração afetiva e por isso ganha um novo nome.

Acelera porque a alma em oração já entendeu que quer se encontrar com seu criador e receber dele o amor. Não é mais estudiosa de Deus, mas quer ser esposa. Qualquer texto, qualquer passagem, qualquer meditação, deixa de ser importante em si mesma para se tornar somente o estopim deste fogo de amor. Assim, num primeiro momento a alma em oração não quer e, logo depois, não consegue mais desenvolver a meditação discursiva como fazia. Como a sulamita do Cântico dos Cânticos, não quer mais cuidar da vinha ou pastorear os rebanhos, quer saber onde se encontra o seu amado para correr para os seus braços.

Oração de simplicidade

Também simplifica-se, pois não é mais necessário grandes reflexões para instaurar o amor, mas, às vezes, somente uma palavra, somente um versículo, ou, até mesmo, somente a lembrança de tanto bem que vem recebendo de seu amado. Por isso, oração de simplicidade: qualquer coisa, mesmo pequena, por si mesma provoca essa intensidade de deleite. Na linguagem do jardim: a água é tão acessível que facilmente é tomada do poço, é tão doce e refrescante que somente um pouco rega e alimenta a terra sedenta por muito tempo.

É, portanto, esse amor a Deus que se derrama numa forma ainda mais perfeita de oração. Muitos, infelizmente, por pura ignorância, lutam contra essa oração querendo restaurar o estudo, a oração discursiva, a oração vocal, a meditação sobre o Evangelho ou outras formas de pensar em Deus. A oração afetiva e, depois, a oração de simplicidade são uma espetacular transição para um modo ainda mais perfeito de estar em união com Deus. Precisam ser aceitas e cultivadas como o verdadeiro presente que são.

Afinal, se Deus quer derramar o Seu amor sobre você, a sua meditação ou estudo pode muito bem esperar por um outro momento, não é mesmo? Ou você considera normal rejeitar a tão esperada noiva que se apresenta para o casamento porque está ocupado demais tentando levantar os dados da sua biografia e entender sua história? Infelizmente, muitos ainda preferem estudar tudo a respeito de Deus em vez de estabelecer uma verdadeira relação com Ele, quando Ele mesmo se apresenta.

No próximo artigo, avançaremos para o terceiro modo de regar o jardim: água abundante, pouco esforço, será que finalmente o céu desceu sobre a terra?

Por Flávio Crepaldi, via Canção Nova

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