Paróquia São José do Jardim Europa

Artigos › 06/04/2018

A misericórdia é uma festa

Várias parábolas de Jesus apontam o rumo da plenitude do Reino de Deus, entendida como uma grande festa. Trata-se do banquete das núpcias, enfim realizadas, entre Deus e o seu povo (Cf. Mt 22,1-10; Lc 14,15-24). As parábolas da misericórdia (Cf. Lc 15,1-32) sempre terminam em festa. Ao filho pródigo e pecador, o Pai Misericordioso prepara um banquete inigualável! Além das parábolas, acontecimentos da vida de Jesus, como as Bodas de Caná (Cf. Jo 2,1-12) nos fazem degustar a festa do encontro com Deus, tempo de vinho novo, acolhida plena a todos. E o Senhor não foge dos tantos convites para refeições em casa de pessoas de todo tipo, assim como cultiva amizades, presença em lares que o acolhem! Jesus é “festeiro”! E tudo envolvido na veste do perdão que supera as distâncias, uma verdadeira paixão pelos pecadores a serem recebidos na casa do Pai! Daí entendermos a grandeza da Festa da Divina Misericórdia, que nos faz receber e aderir ao convite para esta comemoração do imenso Coração de Deus, voltado para a nossa humanidade chagada. Todos nós somos bem vindos, temos um lugar garantido na festa preparada pelo Céu e pela Igreja! É oportuno identificar algumas características do convite e do ritual da Festa da Misericórdia (Cf. Jo 20,19-31)! Com a luz da Palavra do Evangelho (Cf. Jo 20,19-31) e recordando que a devoção à Divina Misericórdia se difundiu com a ajuda da conhecida pintura de Jesus Misericordioso, a partir da experiência espiritual de Santa Faustina Kowalska, contemplemos esta obra de arte que é o amor misericordioso.

A Festa da Misericórdia tem um preço! Alguém está bancando este grande banquete! Nada menos do que o Pai do Céu, que enviou seu Filho, como preço do nosso resgate. O amor de Deus foi ao mais profundo da condição humana, para resgatar, por puro amor, o escravo. “Quem é Cristo senão aquele que no princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus: e a Palavra era Deus? (Cf. Jo 1,1). Essa Palavra de Deus se fez carne e habitou entre nós (Cf. Jo 1,14). Se não tivesse tomado da nossa natureza a carne mortal, Cristo não teria possibilidade de morrer por nós. Mas deste modo o imortal pôde morrer e dar sua vida aos mortais. Fez-se participante de nossa morte para nos tornar participantes da sua vida. De fato, assim como os homens, pela sua natureza, não tinham possibilidade alguma de alcançar a vida, também ele, pela sua natureza, não tinha possibilidade alguma de sofrer a morte. Por isso entrou, de modo admirável, em comunhão conosco: de nós assumiu a mortalidade, o que lhe possibilitou morrer; e dele recebemos a vida. Portanto, de modo algum devemos envergonhar-nos da morte de nosso Deus e Senhor; pelo contrário, nela devemos confiar e gloriar-nos acima de tudo. Pois tomando sobre si a morte que em nós encontrou, garantiu com total fidelidade dar-nos a vida que não podíamos obter por nós mesmos”. (Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo – Sermo Guelferbytanus 3). A misericórdia se realiza na Cruz! Olhar para o crucificado, contemplar suas chagas na cabeça, nas mãos, nos pés e no lado aberto, é condição para participar desta grande festa.

A Misericórdia é Paz! O crucificado é portador da paz, aquela que o mundo não pode dar: “A Paz esteja convosco”, disse repetidas vezes o Senhor Jesus. Só nele o mundo e as pessoas de todas as gerações encontrarão a paz verdadeira e indestrutível, aquela que, ou começa no coração ou nunca se realizará! O “bilhete de entrada” da festa já foi pago, mas é necessário estar desarmados de julgamentos, defesas, preconceitos, para nos aproximarmos das comemorações!

A Misericórdia supera as portas fechadas! O guardião da festa é aquele que disse “Eu sou a porta. Quem entrar por mim será salvo” (Jo 10,9). Não existem mais portas fechadas quando se passa pela Cruz de Jesus. Nele, toda a esperança se acendeu no coração das pessoas, nele os pecadores são reconciliados, nele está a justificação.

A Misericórdia é alegre! Não se trata de uma concessão de uma figura rabugenta, a dizer “vá lá”, diante de choros e lamentações, centralizando tudo em si, mas de uma busca incansável, enviando servos pelas estradas (Cf. Lc 14,22), para que a sala da festa fique repleta! Deus nos antecipa, sabendo que somos frágeis e pequenos diante de sua grandeza, mas ele se inclina, fazendo-se pequenino para apenas convidar, chamar com insistência! Seu rosto resplandece de alegria, como crianças que convidam para a festa do aniversário da bondade e do perdão!

A Misericórdia é sentença de perdão. Com a Morte e Ressurreição de Jesus, a Igreja recebeu a tarefa de levar a todos a misericórdia a ser acolhida na graça do Sacramento da Reconciliação. Todos se tornam iguais, porque todos resgatados, acolhidos e ninguém pode dar desculpas para não entrar na sala da Festa. Os rostos estejam iluminados pela graça do perdão!

A Misericórdia é oportunidade para todos, inclusive para aqueles que ainda não descobriram o seu dia, o Dia do Senhor (“Domingo”), como Tomé, que, chegando atrasado, duvidou por não acreditar no testemunho dos outros, para depois amadurecer na fé e legar-nos a belíssima invocação “Meu Senhor e meu Deus” (Cf. Jo 20, 28-29), para que nós, que não o vemos na carne, entremos na festa como bem-aventurados! Há que aproveitar todas as oportunidades oferecidas pela vida afora!

A Misericórdia se faz missão. Do Cenáculo da Eucaristia e da aparição do Ressuscitado, nasce a missão evangelizadora da Igreja, com a qual deve fecundar de festa, perdão e bondade a terra inteira. O mundo se transforme em festa!

Na festa da Misericórdia, o sopro do Espírito! Jesus entregou o Espírito em sua morte da Cruz, derramou-o na “inauguração” pública da Igreja no Pentecostes! É o mesmo Espírito soprado sobre a primitiva Igreja (Cf. Jo 20,22), para se tornar a respiração da liberdade verdadeira e os frutos do mistério de Cristo Morto e Ressuscitado se manifestem na vida de todos os cristãos, de modo a se espalharem e envolverem o mundo inteiro, para que todos acreditem que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenham a vida em seu nome. (Cf. Jo 20,31)

Por Dom Alberto Taveira Corrêa – Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará

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